11 julho 2010

Por favor

Alicia Aspinwall

Havia uma vez uma pequena expressão chamada ‘Por Favor’ que morava na boca de um garotinho. Os Por Favor moram na boca de todo mundo, ainda que as pessoas se esqueçam com freqüência que eles estão ali.

Mas para ficarem forte e felizes, todos os Por Favor devem ser tirados das bocas de vez em quando, para tomar um pouco de ar. Sabe, eles são como peixinhos de aquário, que sobem à tona para respirar.

O Por Favor do qual irei falar morava na boca de um menino chamado Duda. Só uma vez, em muito tempo, o tal Por Favor teve oportunidade de sair; pois Duda, lamento dizer; era um menininho muito malcriado; que quase nunca se lembrava de dizer ‘Por Favor’.

– Dê-me um pedaço de pão! Quero água! Dê-me aquele livro! – era deste jeito que ele pedia as coisas.

Seus pais ficavam muito tristes com isso. Já o coitado do Por Favor ficava na ponta da língua do menino, aguardando uma oportunidade para sair. Estava cada dia mais fraco.

Duda tinha um irmão mais velho, chamado João. Tinha quase dez anos; e era tão educado quanto Duda era malcriado. Por isso, o seu Por Favor recebia muito ar e era forte e bem-disposto.

Um dia, no café da manhã, o Por Favor de Duda sentiu que precisava tomar ar, mesmo que para isso tivesse de fugir. Foi o que fez – fugiu da boca de Duda, e inspirou longamente. Depois, arrastou-se pela mesa e pulou para a boca de João.

O Por Favor que morava lá ficou muito zangado.

– Saia! – ele gritou. – Aqui não é o seu lugar! Esta boca é minha!

– Eu sei –, respondeu o Por Favor de Duda. – Eu moro na boca do irmão de seu senhor. Mas, meu Deus! Não sou feliz lá. Eu nunca sou usado. Nunca recebo ar puro! Pensei que você me deixaria ficar aqui por um dia ou dois, até eu me sentir mais forte.

– Mas é lógico – disse gentilmente o outro Por Favor. – Eu compreendo. Fique; quando o meu senhor me utilizar, sairemos juntos. Ele é bom, e eu tenho certeza de que não se importará em dizer ‘por favor’ duas vezes. Fique o tempo que desejar.

Ao meio-dia, no almoço, João quis um pouco de manteiga, e falou assim:

– Papai, pode me passar a manteiga, por favor – por favor?

– Pois não –, disse o pai. – Mas por que tanta polidez?

João não respondeu. Voltou-se para a mãe, e disse:

– Mamãe, dê-me um bolinho, por favor – por favor?

A mãe sorriu.

– Vou lhe dar o bolinho, querido; mas por que você diz ‘por favor’ duas vezes?

– Eu não sei –, respondeu João. – As palavras apenas saem. Tita, por favor – por favor, me dê um pouco d’água!

Nesse momento, João ficou um pouco assustado.

– Tudo bem –, disse o pai. – Não há problema nenhum. Mas não se deve dizer tanto ‘por favor’ neste mundo.

Enquanto isso, o pequeno Duda continuara gritando daquele seu jeito mal-educado:

– Quero um ovo! Quero um pouco de leite! Me dá uma colher! – Mas, então, ele parou e escutou o irmão. Achou que seria engraçado falar como João; por isso, começou: – Mamãe, dê-me um bolinho, m-m-m?

Ele estava tentando dizer ‘por favor’ – mas como?

Ele não sabia que o seu pequenino Por Favor estava sentado na boca de João. Tentou outra vez, pedindo a manteiga:

– Mamãe, passe a manteiga, m-m-m?

E só conseguiu dizer isto.

A coisa continuou o dia inteiro, e todos ficaram imaginando o que havia de errado com os dois meninos. Quando anoiteceu, ambos estavam muito cansados, e Duda estava tão aborrecido que a mãe os mandou mais cedo para cama.

Mas na manhã seguinte, logo que se sentaram para o café, o Por Favor de Duda correu de volta para casa. Ele tinha tomado tanto ar puro no dia anterior que estava se sentindo bastante forte e feliz. E, no momento seguinte, ele foi outra vez arejado quando Duda falou: – Papai, por favor, corte a minha laranja! Meu Deus! A expressão saiu fácil, fácil! Soava tão bem como quando João a pronunciava – e João estava falando somente um ‘por favor’ naquela manhã. E daquele dia em diante, o pequeno Duda tornou-se tão educado quanto o irmão.

Fonte: Bennett, W. J., org. 1997. O livro das virtudes para crianças. RJ, Nova Fronteira.


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