28 junho 2007

Epifania

Thereza Christina Rocque da Motta

O mar, póstumo e ferido,
que, antigo e breve,
molda meus desígnios, traz-me
essa nova terra, viva, sob os pés,
meu dizer futuro sem palavra conhecida.

Ressurjo,
um nascer esguio,
sem voz ou alento para o gracejo,
mas a escusa de outro amor negado.

Célebres, o que fazeis de vós?
Vós que servis, atentos,
a memória das águas,
o que jaz submerso e, mesmo assim,
fala?

Cinza, o pó das eras,
argamassa, fronte, terra,
coroa de louros sobre a tez
alvíssima.

Despe, pecado e culpa,
nada te retém, à míngua.

Eis o ósculo de Judas,
o peregrino, o cravo das mãos,
a hóstia e mirra.
Séculos não te explicarão.

Ergue, na floresta oscura,
as mãos sem o cálice,
bendita urdidura.

Terão a passagem, olivais ao largo,
olhos e ouvidos do rei.

Mão e espada,
uma só ferramenta.
Sobre o cenho, espinho,
sob o manto, a lavra.

Terão os homens assistido
aos dias que se passaram
desde tua epifania.
Escolherão um deles para
salvar-te e ainda
louvar-te.

Serão eles os herdeiros
de tudo, os filhos pródigos
do mundo,
hoje nesta terra arguta,
esse bólido centáurico,
nave, ave,
fulminado desterro.

Hoje o dia é ontem.
E nunca baixaremos
ao mar, desceremos
às profundezas dos rios,
à procura dos peixes
e de teu arado.

Serão todos os seres
o infinitesimal, o nada,
espalhados por toda a parte,
à espera.

Fonte: poema gentilmente enviado pela autora, a quem agradeço pela cortesia.

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