22 março 2017

As necessidades do lar

Mary Agnes Hamilton

Como representante dos simples consumidores, aos quais esta grande assembleia, com característica generosidade, permitiu usar da palavra, desejo abordar a discussão de um ponto posto por Sir Harold Hartley. Ele disse, e, claro está, com verdade, que o uso científico da energia não revolucionou somente as condições do trabalho; reduziu também, consideravelmente, a fadiga, aumentou o confortou e melhorou as condições de saúde dentro do lar. Esse alívio, porém, ficou limitado, em geral e neste país, às casas dos bem dotados, a casa moderna. A maior parte das mulheres que trabalham está ainda ligada à sujidade, aos antigos trabalhos pesados e aos antigos utensílios. Trabalham em condições que lhe tornam extremamente difícil encontrar na sua actividade aquela satisfação artística que é devida a qualquer trabalho feito tão bem quanto possível; trabalha em condições que lhe tomam mais tempo, mais energia e mais paciência do que seriam necessários. O meu pedido será, portanto, que se tornem extensivo ao lar humilde os utensílios que poupam trabalho e que podem revolucionar a vida dentro dele. [...]

É este o âmago do meu pensamento. O mundo, para a sua reconstrução, vai precisar do trabalho de todos os seus cidadãos. Vai precisar tanto do trabalho de suas mulheres, como precisa do dos seus homens. Se o trabalho do lar humilde fosse racionalizado – é isso, o mínimo, que a ciência pode fazer por ele – a mulher que quere e pode ter uma ocupação fora de casa, pode tê-la sem sacrificar o seu lar. [...] O aligeiramento duma tarefa desnecessária e sem fim tornará a família, que vive nesse lar, capaz de gozar uma intimidade mais completa e mais livre e, ao mesmo tempo, mais rica e mais variada. A ciência, se não for tão orgulhosa que não possa promover essa comezinha aplicação dos seus grandes sucessos, dará uma não pequena contribuição para aquilo que o dr. Thomas Jones chamou, no outro dia, “os milhares de pequenas vitórias à volta da nossa porta, nas quais a nossa vitória deve ser dividida”.

Fonte: Sá da Costa, A. & Freire, J. R. org. 1943. A ciência e a ordem mundial. Lisboa, Cosmos.

20 março 2017

Gasolina livre de chumbo


Em 1974, T. R. E. Southwood (1931-2005) ingressou na Comissão Real de Poluição Ambiental (rcep, na sigla em inglês), atuando como seu presidente de 1981 a 1986. Em 1983, a rcep publicou um relatório (Lead in the environment), aprovado posteriormente, recomendando a adoção de gasolina livre de chumbo. A tirinha de Noel Ford ironiza um possível diálogo entre Southwood e a então primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013); em tradução livre: Veja bem, primeira-ministra: toda vez que um motorista compra gasolina, ele paga também pelo insidioso aditivo que ameaça seu bem-estar. [Segurando o relatório ‘Chumbo na gasolina’.]//Portanto, veja bem, isso tem de parar.O quê?!//O chumbo – temos de nos livrar dele.//Oh, o chumbo. Por um desagradável momento pensei que você estivesse falando do imposto sobre combustível.

Fonte: Costa, F. A. P. L. 2017. O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna. Viçosa, Edição do autor.

18 março 2017

Felipe IV

Manuel Machado

A Antonio de Zayas

Nadie más cortesano ni pulido
que nuestro Rey Felipe, que Dios guarde,
siempre de negro hasta los pies vestido.

Es pálida su tez como la tarde,
cansado el oro de su pelo undoso,
y de sus ojos, el azul, cobarde.

Sobre su augusto pecho generoso,
ni joyeles perturban ni cadenas
el negro terciopelo silencioso.

Y, en vez de cetro real, sostiene apenas,
con desmayo galán, un guante de ante
la blanca mano de azuladas venas.

Fonte (último terceto): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 4. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1902.

15 março 2017

Piolhos

Charles A. Triplehorn & Norman F. Jonnson

Os piolhos são ectoparasitas pequenos e não alados de aves e mamíferos. Estes insetos eram divididos em duas ordens distintas, Mallophaga (piolhos mastigadores) e Anoplura (piolhos sugadores). A subordem Anoplura contém várias espécies que são parasitas de animais domésticos e duas espécies que atacam humanos. Estes insetos são pragas irritantes e alguns constituem vetores importantes de doenças. Muitos piolhos mastigadores (subordens Amblycera e Ischnocera) são pragas de animais domésticos, particularmente aves de granja. Estes piolhos causam irritação considerável, e animais com infestação intensa apresentam aparência abatida e perda de peso. Se não forem realmente mortos pelos piolhos, tornam-se presa fácil de outras doenças. Diferentes espécies de piolhos atacam diferentes tipos de aves e mamíferos domésticos e cada espécie infesta uma parte particular do corpo do hospedeiro. Não se tem conhecimento de nenhum piolho mastigador que ataque humanos. Pessoas que lidam com aves ou outros animais infestados podem ocasionalmente adquirir estes piolhos, mas eles não permanecem por muito tempo. O controle dos piolhos mastigadores envolve o tratamento do animal infestado com um pó ou banho adequado. Uma terceira suordem de piolhos mastigadores, Rhynchophthirina, contém apenas três espécies, parasitárias de elefantes e alguns porcos africanos.
[...]

Fonte: Triplehorn, C. A. & Jonnson, N. F. 2011. Estudos dos insetos, 7ª ed. SP, Cengage.

13 março 2017

Lirismo

Domingos Carvalho da Silva

Ela subiu à montanha
com uma rosa na mão.

Contemplou o mundo à distância
com uma rosa na mão.

Depois se atirou no abismo
com uma rosa na mão.

E foi sepultada ontem
com uma rosa na mão.

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1952.

12 março 2017

Cento e vinte e cinco meses no ar

F. Ponce de León

Neste domingo, 12/3, o Poesia contra a guerra completa 10 anos e cinco meses no ar. Ao fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue indicava que 312.157 visitas ocorreram ao longo desse período.

Desde o balanço anterior – Dez anos e quatro meses no ar – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Anísio Godinho, Erik Erikson, Gonçalo Eanes do Vinhal, Gordana Đurić, John Donne e Mari Evans. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Edward Wadsworth e Mark Gertler.

11 março 2017

Navios disruptivos


Edward [Alexander] Wadsworth (1889-1949). Dazzle-ships in drydock at Liverpool. 1919.

Fonte da foto: Wikipedia.

08 março 2017

Exausta

Maria Alberta Menéres

Exausta à beira do remorso   à beira
do rio do remorso   do silêncio
do roxo da montanha do remorso
da folha de combate mesmo à sombra
da planta do remorso   venenível
da água enfeitiçada onde mais dura
e escura há uma areia do remorso
Magoadamente às vezes não sei quando
talvez porque de leve as vozes voltam
ao quarto do remorso e sem remorso
escutam a cor tranquila do quadrado
removido de noite para a chuva
e aberto nos meus olhos sem remorso
Magoadamente às vezes não sei quando
remo   remo no dorso do remorso
A distância é um grito do avesso
decomponho o minuto em trinta passos
e de novo   de súbito o primeiro
segundo movimento despenhando
o sangue do remorso   já na curva
veia obscura obcecada do remorso
e a certeza inútil: hino útil
de agora ter o alimento humano
o braço o breve  a sede o leite nervo
do remorso excessivo de mais nada
de ser até demais dizer de nada
– o nada certo e lento no entanto
dor ou solstício e no entanto a dor
do sol   do estio   do vestígio
magoadamente às vezes não sei quando

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1978.

06 março 2017

Flor na adversidade

Poh Pin Chin

Toda criança
Nasce roxa e enrugada
Muitas desenrugam
Algumas até desabrocham
Foi assim com minha neta

05 março 2017

A figueira-dos-pagodes

Anísio Godinho

Enquanto a raiz se desenvolve na terra, o caule cresce para o espaço. Há, contudo, caules que preferem viver na terra, como o do gengibre, e raízes que se desenvolvem n’água, como as do aguapé, ou no espaço, agarradas a outro vegetal, como as das orquídeas. Às vezes, as raízes saem diretamente do caule. São as denominadas adventícias.

Existe, na Índia, uma árvore grande, muito curiosa, conhecida com o nome de a figueira-dos-pagodes. Dos seus galhos, lá de cima, brotam raízes que descem e se firmam na terra, como colunas. A árvore apresenta a singularidade de possuir um tronco mestre e infinidade de outros, secundários. Lembra os santuários hindus, com muitas cercas em volta, denominados pagodes.

Fonte: Godinho, A. 1950. Botânica divertida. SP, Melhoramentos.

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