22 junho 2017

O dilúvio


Léon-François Comerre (1850-1916). Le déluge. 1911.

Fonte da foto: Wikipedia.

20 junho 2017

Sobre a especificidade enzimática

François Chapeville

Uma grande parte da informação contida numa proteína não se destina apenas a permitir esta ou aquela actividade. É uma informação de especificação que consiste em dizer: “Faz isto, e nunca aquilo”. O difícil não está em ter uma certa actividade, mas esta e mais nenhuma outra. Quando se examina rigorosamente as coisas (e esta situação encontra-se agora a todos os níveis em biologia molecular), verifica-se que uma dada proteína tem em geral uma certa actividade, pela qual é catalogada e que, ao mesmo tempo, possui, a um nível muito fraco, actividades parasitas que não têm um papel celular normal. A bactéria Escherichia coli possui uma enzima especializada na utilização de um açúcar, a lactose, que pode servir de alimentação à bactéria. Pode-se-lhe fazer perder o gene codificado para essa enzima. Ora, apesar dessa carência, certos mutantes podem continuar a utilizar a lactose como alimento. O que acontece é que uma das proteínas da bactéria possui, a título de actividade parasita muito fraca, a capacidade de utilizar a lactose. Os mutantes que fabricam essa proteína em excesso, em quantidade cem vezes superior à normal ou ainda mais, podem muito bem passar sem o gene codificado normalmente para a proteína de utilização da lactose. De uma maneira geral, quando as condições externas mudam, uma actividade parasita pode, após amplificação, trazer a resposta a um desafio evolutivo.

Fonte: Noël, E., org. 1981. O darwinismo hoje. Lisboa, Dom Quixote.

17 junho 2017

Visita ao túmulo materno

Augusto Frederico Schmidt

Este homem parecendo distraído
Que está ao pé de teu leito de pedra,
Este ser usado, batido e contraditório,
É a mesma criatura que trouxeste a este mundo
E foi ferida e feriu e foi injustiçada
E praticou injustiças nesta inglória existência.
Este homem inconsciente e incerto,
Discutido e incompreendido,
Este homem no seu outono,
Cujos olhos perderam o brilho e o calor
E se tornaram apagados e tristes,
Este desconhecido que aqui está
E que, por um breve momento, procurou um abrigo junto à tua ausência,
E que, para disfarçar o seu medo
Procura apoiar-se nos seus pobres e terrestres interesses,
Este homem inqualificável, insaciável e insatisfeito
É aquele mesmo filho teu, aquele tonto filho a quem embalastes quando saiu da materna sepultura,
É o mesmo ser a quem deixaste na adolescência
Só o poeta – o que vale dizer duas vezes só.
É o teu filho, o teu filho
A quem não reconhecerias, tão mudado ficou
Desde que o viste pela última vez;
É a tua caixa de ressonância, Mãe, que aqui está,
Convencional e estúpido, com o ar de quem cumpre um dever.
A fronte que se curva, num gesto comum,
Diante de tua lousa, é a mesma fronte
Em que pousaram as tuas inquietas mãos
Para medir as febres da infância.
É o teu filho que desejaria que o embalasses nos teus braços de morta,
Mas não ousa pedir-te, porque é um homem,
Um homem acabado, mas um homem assim mesmo.

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1964.

15 junho 2017

Viajando num carro confortável

Bertold Brecht

Viajando num carro confortável
Por uma estrada chuvosa do interior
Avistamos ao cair da noite um homem rústico
Solicitando-nos condução com um gesto humilde
Tínhamos teto e tínhamos espaço e seguimos em frente
E a mim [ouvimos] dizer num tom de voz árido: “Não,
Não podemos levar ninguém conosco”.
Tínhamos avançado já boa distância, um dia de viagem talvez,
Quando subitamente fiquei chocado com esta voz minha
Com este comportamento meu
E todo este mundo.

Fonte: Giannetti, E. 1997. Auto-engano. SP, Companhia das Letras.

13 junho 2017

Down House

Rebecca Stefoff

Em 1842 Darwin comprou uma propriedade no povoado rural de Dowde chamada Down House, situada no condado de Kent, nos arredores de Londres. Darwin adorou essa nova casa, onde vivia cercado de árvores e flores em vez de ruas e fuligem. Adaptou uma sala espaçosa em gabinete e começou a abarrotá-la de livros, anotações sobre trabalhos em andamento e pilhas de correspondência. A casa era grande o suficiente para abrigar uma equipe de criados e a família crescente de Darwin. Em 1856, ele e Emma já tinham dez filhos: Willian, Anne (Annie), Mary, Henrietta (Etty), George, Elizabeth (Bessy), Francis, Leonard, Horace e Charles. Mary e Charles morreram ainda bebês; Annie morreu aos dez anos após uma doença grave, uma tragédia que perseguiu Darwin para sempre.

A vida em Down House logo engendrou em uma rotina tranquila que Darwin seguiu, com poucas exceções, pelo resto da vida. Ele começava o dia com uma caminhada por Sandwalk, a alameda de areia que ele mandara fazer ao redor de um bosque no terreno da propriedade. Depois do desjejum, escrevia em seu gabinete das 8h à 9h30, em seguida lia a correspondência do dia. Às 10h30 voltava a trabalhar por cerca de uma hora, antes de dar mais uma volta em Sandwalk. A essa hora, às vezes, tomava uma ducha fria, que acreditava fazer bem à sua saúde.

Depois da refeição do meio-dia, ele lia jornal e escrevia cartas na sala de estar. Às 3 da tarde, repousava no quarto por uma hora. Emma frequentemente lia romances para ele em voz alta nesses momentos. À tardinha, Darwin fazia outra caminhada e trabalhava por mais uma hora. Quando seus filhos eram pequenos, ele costumava fazer pausas imprevistas para brincar com eles no jardim.

Depois de uma leve refeição à noite, gostava de jogar partidas de gamão com Emma. (O cuidado com que ele fazia o registro dos resultados dos jogos reflete sua paixão por colidir e registrar dados: em 1876 ele informou a seu amigo Asa Gray, botânico americano, que vencera 2795 partidas, e Emma, 2490.) Depois de ler um livro científico durante uma ou duas horas, Darwin deitava-se às 10h30.
[...]

Fonte: Stefoff, R. 2009. Charles Darwin: A revolução da evolução. SP, Companhia das Letras.

12 junho 2017

Dez anos e oito meses no ar

F. Ponce de León

Nesta segunda-feira, 12/6, o Poesia contra a guerra completou 10 anos e oito meses no ar. Ao fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue indicava que 319.205 visitas ocorreram ao longo desse período.

Desde o balanço anterior – Dez anos e sete meses no ar – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Karla Chediak, Lewis Thomas, Marcia D. Lowe, Maria Andréia de Paula Silva, Nikki Giovanni, Robert L. Usinger e Tracy I. Storer. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Albert Gleizes, Henri Le Fauconnier e Jean Metzinger.

10 junho 2017

Repensando o transporte urbano

Marcia D. Lowe

O automóvel prometeu outrora um mundo fascinante de velocidade, liberdade e conveniência, transportando magicamente as pessoas aonde quer que a estrada pudesse levá-las. Dadas essas sedutoras qualidades, não é surpreendente o fato de as pessoas em todo o mundo abraçarem entusiasticamente o sonho de posse de um automóvel. Mas as sociedades que edificaram seus sistemas de transporte em torno do automóvel estão hoje despertando para uma realidade muito mais desagradável. Os problemas criados pelo excesso de confiança no automóvel estão pesando mais do que os seus benefícios.

Esses problemas são numerosos e muito difundidos. O congestionamento do tráfego e a poluição do ar atormentam todas as grandes cidades, e a dependência com relação ao petróleo torna as economias vulneráveis. Cada vez fica mais difícil viver em cidades cujas ruas foram planejadas para automóveis e não para pessoas. Nos países em desenvolvimento, os automóveis prestam serviços apenas a uma pequena elite e deixam a imensa maioria com transportes inadequados. Na Europa Oriental e na União Soviética, as recentes reformas poderiam acrescentar os problemas da dependência com relação ao automóvel às esmagadoras crises econômicas e ambientais.
[...]

Fonte: Brown, L. R., org. 1992. Qualidade de vida – 1991. SP, Globo.

08 junho 2017

Homem na rede


Albert Gleizes (1881-1953). L’homme au hamac. 1913.

Fonte da foto: Wikipedia.

06 junho 2017

No claustro de celas

Camilo Pessanha

Eis quanto resta do idílio acabado,
– Primavera que durou um momento...
Como vão longe as manhãs do convento!
– Do alegre conventinho abandonado...

Tudo acabou... Anêmonas, hidrângeas,
Silindras, – flores tão nossas amigas!
No claustro agora viçam as ortigas,
Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.

Sobre a inscrição do teu nome delido!
– Que os meus olhos mal podem soletrar,
Cansados... E o aroma fenecido

Que se evola do teu nome vulgar!
Enobreceu-o a quietação do olvido,
Ó doce, ingênua, inscrição tumular.

Fonte: Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª edição. BH, Editora Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1920.

05 junho 2017

Ora (direis) puxar histórias

Maria Andréia de Paula Silva

O objetivo deste capítulo é, por meio da leitura de alguns contos de Histórias mal contadas (2005) e ensaios de Ora (direis) puxar conversa! (2006), continuar a surpreender um movimento de escrita que transita do ficcional para o ensaístico e vice-versa, presente na obra de Silviano Santiago. Mostrarei também que o elemento biográfico, com referência à trajetória biomaterial do autor, permite uma clave de leitura que aproxima os dois livros, apesar de aparentemente se colocarem sob o signo de gêneros textuais diferentes. Trata-se de, mais uma vez, mostrar a coerência e o trânsito entre as três esferas em que Santiago atua: professor, intelectual (ensaísta) e escritor.
[...]

Fonte: Silva, M. A. P. 2016. Silviano Santiago: Uma pedagogia do falso. Curitiba, Appris.

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